DVD: The Office – 2a. Temporada

quarta-feira, outubro 24, 2007


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Universal

Um clássico (re)nasce

Depois de uma curtíssima primeira temporada, The Office volta livre da sombra de seu molde britânico e finalmente encontra seu próprio tom dentro do formato. Episódios clássicos tomam forma e tornam-se referência pop, ocupando o vazio deixado por Seinfeld. De quebra, o elenco está afinadíssimo e ainda temos a química perfeita do quase-casal Jim e Pam. Resumindo: a melhor sitcom da TV atualmente.

publicado na revista Rolling Stone nº 12


Lady Vingança

terça-feira, outubro 9, 2007

Depois do sucesso internacional de Old Boy, seu filme anterior, o diretor Chan-wook Park retorna à temática da vingança com este Lady Vingança. Mas não volta por mero comodismo; afinal, ele elaborou uma trilogia sobre a vingança, com histórias e personagens diferentes. O primeiro, Simpathy for Mr. Vengeance, é inédito no Brasil.

Desta vez, Park conta a história de Geum-ja Lee (interpretada por Yeong-ae Lee), uma mulher condenada a 13 anos de prisão por ter cometido um infanticídio. Na verdade, ela assumiu a culpa do crime por motivos que serão explicados no decorrer da narrativa. Por conta disso, Geum-ja elabora um plano para vingar-se, a ser executado quando sair em liberdade.

É inevitável a comparação de Lady Vingança com Old Boy, principalmente pelo início das tramas (cada protagonista fica preso durante muitos anos e depois busca o acerto de contas com seu inimigo). Chega a ser frustrante tamanha similaridade.

Apesar disso, o desenrolar da história é diferente; a ótica feminina, mais elegante, fornece um registro menos explosivo, mas igualmente interessante. Uma série de flashbacks na primeira metade do filme detalha o passado da mulher, enquanto ela busca ajuda de suas ex-colegas de cela para dar cabo de seu plano de vingança.

Park tem um grande apreço pela estética em seus filmes – seja pelos enquadramentos e efeitos visuais, seja pelo design de elementos cênicos -, mas a confecção de uma arma estilizada para o confronto final torna-se bastante inverossímil. Sim, o design é fascinante, mas até seu construtor avisa que ela não terá grande alcance, e que deverá ser acionada à queima-roupa para atingir o alvo. Oras, se é tão problemática, é melhor arranjar um revólver qualquer mesmo…

Mesmo não sendo tão vibrante e espetacular como Old Boy, o trunfo de Park aqui é outro. Ele aponta o dedo em outra direção, desviando-se da banalização e glamurização da violência. Agora, ele questiona a legitimidade e a moralidade da vingança. Diante de um crime hediondo, não temos o direito de uma reparação na mesma moeda? Dado esse direito, a vítima e seu algoz não trocam seus papéis? E afinal, a vingança compensa?

Perguntas difíceis, que incomodam o espectador. Essa discussão surge no clímax do filme, violentíssimo mas não explícito. O conceito por trás desta violência, por si só, já é bastante perturbador.

Lady Vingança (Chinjeolhan geumjassi, 112 min, 2005)
Dir.: Chan-wook Park
Com: Yeong-ae Lee, Min-sik Choi


Filme: Person

terça-feira, outubro 9, 2007

«««1/2
Dirigido por Marina Person

Em nome do pai

Marina Person, apresentadora da MTV, tem um saudável peso em suas costas: é filha do mítico cineasta Luiz Sérgio Person, autor dos clássicos São Paulo S/A (1965) e O Caso dos Irmãos Naves (1967). O fascínio familiar e artístico pela figura paterna a levou a dirigir este documentário-tributo, que levou oito anos para ser concluído.

Com depoimentos de amigos e colegas como Antunes Filho, Walmor Chagas, Paulo José e Jean-Claude Bernardet, Marina busca conhecer seu pai, com quem pouco conviveu (Person teve uma morte prematura, aos 39 anos). As entrevistas mesclam-se com filmes da família em super-8 e com uma ótima entrevista dada por ele na TV Cultura. Surge a imagem de um homem de fortes convicções, um gênio solitário e um pai de família carinhoso.

Mesmo contando com a participação afetiva da irmã Domingas e da mãe Regina, a diretora evita o fácil caminho da mera homenagem e monta um sensível retrato sobre um dos nossos mais inteligentes e versáteis diretores. Há inclusive algumas aparições da filha-diretora, mas fica a estranha sensação de “auto-entrevista”. A curta duração do documentário reflete a vida e a obra de Person: intensa, breve e marcante. Seu pai ficaria orgulhoso.

publicado na revista Rolling Stone nº 11


HQ: As Melhores do Analista de Bagé

terça-feira, outubro 9, 2007


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Luis Fernando Veríssimo e Edgar Vasques
Objetiva

Divã inspirado

O Analista de Bagé finalmente reapareceu. No início, eram apenas contos; depois, transformou-se em peça de teatro. Agora, após clinicar por quase uma década na revista Playboy e ter sumido do mapa, o Analista ressurge em uma edição bem-acabada (devidamente acompanhado da fiel secretária Lindaura), compilando as HQs publicadas neste período.

Gaúcho de bombacha, daqueles que não levam desaforo pra casa, o personagem cura todos os problemas que, bem ou mal, são relacionados a sexo: ninfomania, frigidez, ejaculação precoce e por aí vai. Cada caso dura uma página, e ainda somos brindados com a inédita “Papai Fresco”, que dá o indício de uma provável aposentadoria.

O texto de Veríssimo, para variar, continua com timing preciso e ligeiro, garantia de boas risadas. Mas o que chama a atenção é a esplêndida arte de Edgar Vasques: a composição de cada quadro, o uso de aquarela, o traço digno dos melhores quadrinistas europeus. Somente um visual refinado para fazer frente à prosa de Veríssimo.

publicado na revista Rolling Stone nº 10


O Hospedeiro

terça-feira, outubro 9, 2007

O Hospedeiro mostra, mais uma vez, a força do cinema asiático na produção de obras pop de alcance mundial. Depois dos filmes de Stephen Chow (Kung-Fu Futebol Clube, Kung-Fusão) e Park Chan-Wook (Old Boy), Bong Joon-Ho mostra mais uma vertente de forte apelo comercial e grande valor cinematográfico.

Em Seul, um monstro emerge das águas do Rio Han e ataca a população. No meio deste caos, a menina Park Hyun-Seo é capturada pela criatura e dada como morta. Depois de seu pai receber um sinal de vida dela, a família se unirá para resgatá-la a qualquer preço.

O cerne da história não é original, mas o que importa aqui é a vitalidade narrativa que Bong proporciona. Logo na primeira cena, descobrimos a causa da mutação: o despejo de produtos químicos no rio Han, a mando do exército norte-americano, que mantém uma base estratégica na região. Desde já, é possível sentir a crítica à política intervencionista do governo Bush (e essa postura é enfatizada em outros momentos da história).

Apesar deste olhar politizado, o filme não é tão somente uma metáfora para tratar do assunto. Bong tira do gueto o subgênero do filme de monstro e o transforma em algo novo e excitante.

Tal qual seu antagonista, o próprio filme é uma mutação, uma mistura de vários gêneros (terror, comédia, melodrama). Esta família de desajustados é uma escolha incomum para a representação dos heróis. O avô, dono de um quiosque na beira do rio, é o mais próximo da dita “normalidade”. O pai é sonolento, acomodado e lesado; o tio, um desempregado que vive das glórias do passado, quando lutou pela democracia no país; e a tia, exímia arqueira e orgulho da família, mas que sofre com sua própria lentidão.

Interessante que o diretor brinca com as próprias convenções do gênero: o fato de haver uma personagem especializada no arco-e-flecha só pode significar que ela terá vital importância no momento do ataque. Mas a sua falta de rapidez sempre adia o momento da flechada.

O núcleo familiar, antes desarranjado, recupera sua união a partir do desaparecimento da menina. Todos terão papel fundamental na caça ao monstro.

A criatura, aliás, é um deleite à parte. Gigantesca variação mutante de um peixe com patas, o design da besta foge da tradicional forma humanóide que sempre aparece nas telas. Animalesca, selvagem, desastrada – às vezes escorrega e tropeça por não entender a dinâmica de seu próprio corpo – o bicho é original, fascinante e assustador.

Aliás, a seqüência do primeiro ataque é antológica: sem cerimônias, o monstro ataca em pleno dia ensolarado, como se fosse o clímax do filme. E por não ter sido apresentado anteriormente, a platéia sente o mesmo espanto das vítimas ao reagir diante de uma situação tão bizarra. Uma cena excepcionalmente bem filmada, como o restante do filme. Destaque também para o embate final, filmado em apoteótica câmera lenta.

Com tantas qualidades – para o público e para os críticos -, O Hospedeiro tornou-se a maior bilheteria da história da Coréia do Sul, terá um remake hollywoodiano e uma continuação sul-coreana (mas sem Bong Joon-Ho). Ou seja, subprodutos que não terão a mesma graça. Prefira o frescor do original.

O Hospedeiro (Gwoemul, 119 min, 2006)
Dir.: Bong Joon-Ho
Com: Song Kan-Ho, Byeon Hee-Bong, Bae Du-Na


DVD: Motoboys – Vida Loca

terça-feira, outubro 9, 2007


«««1/2
Prodigo

O navegador do futuro
Documentário premiado mergulha no universo dos motoboys

Personagem-chave da paisagem urbana do século 21, o motoboy surge como uma versão turbinada do antigo office boy, responsável por transportar produtos e serviços rapidamente pelas artérias das metrópoles (principalmente de São Paulo). Segundo estimativas “oficiais”, existem entre 170 a 350 mil motoboys na Grande São Paulo, com uma média de 2 mortes por dia. É inegável a função estratégica desta tribo urbana; sem eles, a cidade entraria em colapso.

Com Motoboys – Vida Loca, o diretor Caito Ortiz esmiúça a personalidade destas figuras, buscando entender as razões que os levam a seguir esta profissão de alto risco.

A controvérsia, neste caso, é inevitável. Por um lado, o urbanista Paulo Mendes da Rocha afirma que “o motoboy é uma metáfora contra a estupidez do trânsito (…) é o navegador do futuro.” Mais adiante, um inconformado J.R. Duran questiona porque o motoboy pensa que está acima do bem e do mal: “Só pelo fato de que tá correndo atrás da grana? Pô, tá todo mundo correndo atrás da grana!”

Há o caso do auto-intitulado “Falcão Negro”, que curte a adrenalina sobre duas rodas e afirma ganhar uma boa grana com isso (“uns 400 reais”). Posando de rebelde e desencanado, tem em casa uma mãe preocupada com o futuro do filho.

Mais tocante é a história de Madá, uma motogirl de 44 anos. Divorciada, perdeu a razão de viver quando seu filho morreu, há alguns anos. Com tristeza na mente, ela usa o trabalho para evitar a dor da ausência, que sente todos os dias.

Tem também um aspirante da profissão, um jovem entregador de pizza, que sonha com uma moto para impressionar as meninas.

A falta de oportunidade acaba sendo um fator determinante. Mas, se este trabalho é vital, não há chance de regulamentá-lo, valorizá-lo e fiscalizá-lo?

A questão motoqueiros X motoristas, tão sensível no dia-a-dia, fica restrita à troca de farpas, mas poderia render muito mais. E, destoando de todo o conjunto, há um equivocado momento “Michael Moore”, com a equipe tentando entrevistar a então prefeita Marta Suplicy, sem sucesso.

O documentário é despojado e gravado de forma simples, valorizando o que está sendo dito. Os comentários pontuais de algumas personalidades e especialistas ajudam a questionar e compreender o papel destes mensageiros motorizados. O filme ganha pontos na temática e na condução da narrativa, confirmando o porquê do Prêmio do Público na 27ª. Mostra BR de Cinema de São Paulo.

publicado na revista Rolling Stone nº 10


DVD: Quem Matou o Carro Elétrico?

quinta-feira, outubro 4, 2007


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Imagem Filmes

Whodunit ambiental

Aproveitando a discussão sobre aquecimento global e guerras motivadas pelo controle do petróleo, o diretor Chris Paine coloca a sua peça nesse quebra-cabeça ambiental. Quem Matou o Carro Elétrico? é um documentário investigativo sobre o que aconteceu com o primeiro e único modelo de automóvel movido a energia elétrica que foi efetivamente comercializado nos EUA.

A partir de uma lei californiana que estipulava uma porcentagem mínima de veículos não poluentes, o filme tenta reconstruir o caminho que levou a própria indústria automobilística a interromper a produção e, inclusive, destruir todos os carros elétricos que ainda estavam em circulação, tirando-os de seus próprios donos.

Com narração do politizado Martin Sheen, a boa premissa detetivesca perde a força devido à falta de objetividade. É evidente que o filme é pró-carro elétrico – o que não é ruim -, mas defender um ponto de vista mina a integridade de todo bom documentário que se preze. Teorias conspiratórias são levantadas e culpados são apontados, como a indústria do petróleo e até o próprio governo norte-americano. Todas as informações se complementam e fazem sentido, mas o verniz de parcialidade deixaria Michael Moore orgulhoso.

Mesmo assim, os pormenores dessa história não deixam de ser estranhos e fascinantes: por que os próprios fabricantes desestimulavam os consumidores interessados? Por que divulgar as limitações de seu próprio produto?

Em tempos de Al Gore e seu Uma Verdade Inconveniente, a intenção de conscientizar e educar a população sobre questões ambientais merece aplausos. E se parte do problema é relacionado ao monopólio do petróleo, fica a pergunta: será este também o destino do nosso álcool combustível?

publicado na revista Rolling Stone nº 09 (em versão editada)


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