O Hospedeiro mostra, mais uma vez, a força do cinema asiático na produção de obras pop de alcance mundial. Depois dos filmes de Stephen Chow (Kung-Fu Futebol Clube, Kung-Fusão) e Park Chan-Wook (Old Boy), Bong Joon-Ho mostra mais uma vertente de forte apelo comercial e grande valor cinematográfico.
Em Seul, um monstro emerge das águas do Rio Han e ataca a população. No meio deste caos, a menina Park Hyun-Seo é capturada pela criatura e dada como morta. Depois de seu pai receber um sinal de vida dela, a família se unirá para resgatá-la a qualquer preço.
O cerne da história não é original, mas o que importa aqui é a vitalidade narrativa que Bong proporciona. Logo na primeira cena, descobrimos a causa da mutação: o despejo de produtos químicos no rio Han, a mando do exército norte-americano, que mantém uma base estratégica na região. Desde já, é possível sentir a crítica à política intervencionista do governo Bush (e essa postura é enfatizada em outros momentos da história).
Apesar deste olhar politizado, o filme não é tão somente uma metáfora para tratar do assunto. Bong tira do gueto o subgênero do filme de monstro e o transforma em algo novo e excitante.

Tal qual seu antagonista, o próprio filme é uma mutação, uma mistura de vários gêneros (terror, comédia, melodrama). Esta família de desajustados é uma escolha incomum para a representação dos heróis. O avô, dono de um quiosque na beira do rio, é o mais próximo da dita “normalidade”. O pai é sonolento, acomodado e lesado; o tio, um desempregado que vive das glórias do passado, quando lutou pela democracia no país; e a tia, exímia arqueira e orgulho da família, mas que sofre com sua própria lentidão.
Interessante que o diretor brinca com as próprias convenções do gênero: o fato de haver uma personagem especializada no arco-e-flecha só pode significar que ela terá vital importância no momento do ataque. Mas a sua falta de rapidez sempre adia o momento da flechada.
O núcleo familiar, antes desarranjado, recupera sua união a partir do desaparecimento da menina. Todos terão papel fundamental na caça ao monstro.
A criatura, aliás, é um deleite à parte. Gigantesca variação mutante de um peixe com patas, o design da besta foge da tradicional forma humanóide que sempre aparece nas telas. Animalesca, selvagem, desastrada – às vezes escorrega e tropeça por não entender a dinâmica de seu próprio corpo – o bicho é original, fascinante e assustador.
Aliás, a seqüência do primeiro ataque é antológica: sem cerimônias, o monstro ataca em pleno dia ensolarado, como se fosse o clímax do filme. E por não ter sido apresentado anteriormente, a platéia sente o mesmo espanto das vítimas ao reagir diante de uma situação tão bizarra. Uma cena excepcionalmente bem filmada, como o restante do filme. Destaque também para o embate final, filmado em apoteótica câmera lenta.
Com tantas qualidades – para o público e para os críticos -, O Hospedeiro tornou-se a maior bilheteria da história da Coréia do Sul, terá um remake hollywoodiano e uma continuação sul-coreana (mas sem Bong Joon-Ho). Ou seja, subprodutos que não terão a mesma graça. Prefira o frescor do original.
O Hospedeiro (Gwoemul, 119 min, 2006)
Dir.: Bong Joon-Ho
Com: Song Kan-Ho, Byeon Hee-Bong, Bae Du-Na