DVD: Motoboys – Vida Loca


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Prodigo

O navegador do futuro
Documentário premiado mergulha no universo dos motoboys

Personagem-chave da paisagem urbana do século 21, o motoboy surge como uma versão turbinada do antigo office boy, responsável por transportar produtos e serviços rapidamente pelas artérias das metrópoles (principalmente de São Paulo). Segundo estimativas “oficiais”, existem entre 170 a 350 mil motoboys na Grande São Paulo, com uma média de 2 mortes por dia. É inegável a função estratégica desta tribo urbana; sem eles, a cidade entraria em colapso.

Com Motoboys – Vida Loca, o diretor Caito Ortiz esmiúça a personalidade destas figuras, buscando entender as razões que os levam a seguir esta profissão de alto risco.

A controvérsia, neste caso, é inevitável. Por um lado, o urbanista Paulo Mendes da Rocha afirma que “o motoboy é uma metáfora contra a estupidez do trânsito (…) é o navegador do futuro.” Mais adiante, um inconformado J.R. Duran questiona porque o motoboy pensa que está acima do bem e do mal: “Só pelo fato de que tá correndo atrás da grana? Pô, tá todo mundo correndo atrás da grana!”

Há o caso do auto-intitulado “Falcão Negro”, que curte a adrenalina sobre duas rodas e afirma ganhar uma boa grana com isso (“uns 400 reais”). Posando de rebelde e desencanado, tem em casa uma mãe preocupada com o futuro do filho.

Mais tocante é a história de Madá, uma motogirl de 44 anos. Divorciada, perdeu a razão de viver quando seu filho morreu, há alguns anos. Com tristeza na mente, ela usa o trabalho para evitar a dor da ausência, que sente todos os dias.

Tem também um aspirante da profissão, um jovem entregador de pizza, que sonha com uma moto para impressionar as meninas.

A falta de oportunidade acaba sendo um fator determinante. Mas, se este trabalho é vital, não há chance de regulamentá-lo, valorizá-lo e fiscalizá-lo?

A questão motoqueiros X motoristas, tão sensível no dia-a-dia, fica restrita à troca de farpas, mas poderia render muito mais. E, destoando de todo o conjunto, há um equivocado momento “Michael Moore”, com a equipe tentando entrevistar a então prefeita Marta Suplicy, sem sucesso.

O documentário é despojado e gravado de forma simples, valorizando o que está sendo dito. Os comentários pontuais de algumas personalidades e especialistas ajudam a questionar e compreender o papel destes mensageiros motorizados. O filme ganha pontos na temática e na condução da narrativa, confirmando o porquê do Prêmio do Público na 27ª. Mostra BR de Cinema de São Paulo.

publicado na revista Rolling Stone nº 10

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